Há em “O Fim do Silêncio” - a obra de estréia de Raul Marques - alguma dose do desassossego já dito por Pessoa; mas há também esperança, apego às pequenas coisas que valem a pena na vida. Pode ser pessimista a primeira impressão que a leitura desperta, mas o olhar do poeta também aponta para o que há de bom, e que talvez só a poesia seja capaz de fazer emergir. O lançamento de “O Fim do Silêncio” acontece hoje, às 20h, no Centro Cultural. O livro é o passo final de um projeto iniciado há três anos por Marques, no rabisco dos primeiros versos. “Foram mais de 300 poesias para chegar às 68 que compõem a obra”, explica. Já o título é uma resposta ao tempo de espera das pessoas próximas ao jovem poeta, que sabiam de sua produção, mas não tinham acesso a ela. “Esse agora é o fim do meu silêncio”, diz. Raul Marques é jornalista e desde 2004 trabalha no Diário, na editoria de Cidades, sendo responsável por projetos importantes como o Diário nos Bairros.
A literatura, portanto, representa uma nova forma de o repórter lidar com a palavra. “No jornal lido com o efêmero, com o passageiro; na poesia há oportunidade de lidar com o universal. É a forma que encontrei de me expressar, de colocar para fora o que incomoda, resolver dilemas que aparecem no dia-a-dia”. diz. “A poesia é o lado B da objetividade a todo instante do jornalismo”. O repórter do Diário enxerga como utópica a satisfação plena do poeta com a própria obra. Tanto que, durante a produção, Marques fez várias “visitas” aos poemas, a fim de lapidá-los, até que foi preciso frear, pois esse seria um processo sem fim. “Foi o Borges quem disse que um escritor só publica a obra para se livrar dela. É algo angustiante mesmo, nunca está bom o suficiente”. Marques chega ao primeiro livro cinco anos depois de descobrir a poesia - e deixar-se envolver por seu estranhamento. Foi durante a faculdade. Antes, sua experiência de leitura vinha tão somente da prosa.
Aprecia os obrigatórios Bandeira e Drummond, mas suas referências são outras. “A primeira é o Mário Quintana, pela simplicidade; a segunda é Fabrício Carpinejar, por sua concisão no uso das palavras. São coisas que busco quando escrevo: simplicidade e concisão, dizer mais em menos”, comenta o poeta. Aos 25 anos, Marques espera que “O Fim do Silêncio” seja um divisor de águas, que esta seja a primeira de várias obras. Nascido em São Paulo, Marques morou na metrópole até os 19 anos, quando a família se mudou para Bady Bassitt. Estudou Jornalismo na Unilago. O poeta tem uma preocupação de não se prender a estilos, às métricas “aprisionadoras” da velha poesia. Como em toda atividade, Marques aposta na prática para o aprimoramento. No caso da literatura, porém, o exercício é também a via indissociável para definir o estilo próprio. “Você sabe de onde você parte - mas não até onde pode ir”.
Poesias:
Ode ao não sincero
Quero o não; o não mais seco, áspero,
o que dói como soco no estômago.
Quero o não que desmonta, desestabiliza,
faz-me sentir o pior, até com possibilidade de recuo.
Quero o não mais direto, sem meias-expressões,
explicações imprecisas, eufemismos tolos.
Só me interessa o não proferido de uma vez,
capaz de acabar com sonhos de décadas
ou até resultar em féretro.
Quero o não desesperado, pornográfico, manchado,
sem açúcar, preparo ou aviso prévio.
Todos os nãos possíveis:
nada de afirmativa por conveniência.
Em frente
Ando por caminhos bem iluminados.
Nada de beco,
nada de rua sem saída,
nenhuma travessa.
No bolso, somente os endereços
aonde não pretendo voltar.